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CARTA ENVIADA NO SÉC. XVIII, POR WILLIAM BECKFORD A UM AMIGO INGLÊS E ONDE SE FALA DE ESTREMOZ |
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Sábado, 1 de Dezembro de 1787 ........................................................................................................................................................ A tarde tornou-se fria e nublada. Antes de chegarmos a Estremoz, outra vila fortificada assente num combro, e mais famosa e gabada do que merece, começou a chover torrencialmente. Neste momento oiço a chuva a esparrinhar e a correr nos charcos que se formavam no grande e deserto rossio em cujo extremo está situada a nossa pousada que, para Portugal, não pode dizer-se como qualquer outra, porque as paredes e os tectos têm sido caiados a primor e tem cadeiras e mesas. Os tapetes que comprei fazem-me um servição para me protegerem os pés da humidade do chão de tijolo. Espalhei-os em redor da minha cama e produzem um conjunto vistoso e estrambótico. Domingo, 2 de Dezembro de 1787 Por volta das sete da manhã, quando abri os olhos, o céu ainda estava tristonho e carrancudo e numerosos vultos humanos, embrulhados em capotes escuros, começavam a sair de várias baiucas e antros que há em ambos os lados da porta de entrada. Todos eles tinham vindo atraídos por um mercado que se realizava hoje e estavam lamentando em coro o tempo chuvoso que não permitia que luzissem as galas de seus trajos domingueiros. Muita desta boa gente passou a noite nas cavalariças da pousada. Quando desci a escada ainda vi alguns deles, de ambos os sexos, postos a esmo, como mortos e feridos em campo de batalha ou, para usar de comparação menos tétrica, como, em Inglaterra, os eleitores costumam ficar - a curtir bebedeiras de caixão à cova - em dia de eleições renhidas. Das janelas da pousada baixei a vista sobre o amplo terreiro, com mil pés de largo, rodeado por construções irregulares, entre as quais, porém não descortinei nenhum dos tais elegantes edifícios com colunas de mármore, que alguns rabiscadores de viagens referem em termos encomiásticos. A torre de mármore, construída por D. Diniz, que eles também encarecem, perdeu por completo o polimento, se é que o teve alguma vez. Mesmo junto da pousada há uma capelinha para onde encaminhei os passos depois de almoço e onde ouvi um tremendo sermão pregado por um capuchinho já grisalho e de olhar coruscante e escutado por um rancho de mulheres que tinham os olhos inchados de tanto chorar. ........................................................................................................................................................ William Thomas Beckford
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