NOTAS SOBRE O CANCIONEIRO DE NATAL ALENTEJANO

 

Hernâni António Carmelo de Matos

 

Pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pela casa tradicional, pelo cante, pelo cancioneiro popular, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria.

Quando digo Alentejo, digo um só Alentejo. Digo o Alentejo de Catarina, mas também o Alentejo de Florbela. Digo o Alentejo de Manuel da Fonseca, mas também o Alentejo do Conde de Monsaraz. Digo afinal, o Alentejo que é e será uma região, mas que é também um estado de espírito e é sobretudo uma forma de estarmos e sermos solidários, a qual se reflecte naturalmente em tudo, inclusive no cancioneiro popular de Natal, onde apesar da pouca religiosidade, é notório o respeito pela Sagrada Família, a qual apesar disso é tratada terra a terra e mesmo com uma certa ironia. Assim, Jesus é identificado como mais pobre que os pobres:

 

Qualquer filho de homem pobre

Nasce num céu de cortinas.

Só tu, Menino Jesus,

Nasceste numas palhinhas.[1]

 

Jesus é também recriminado por ter nascido numa época de frialdade:

 

Ó meu Menino Jesus

Ó meu menino tão belo,

Logo Vós foste nascer

Na noite do caramelo![2]

 

Fazendo fé no cancioneiro, ou das duas uma, tal como a minha filha, o Menino era crescido para a idade, ou S. José era um carpinteiro de obra grossa, que fazia as obras a olho, não ligando às possíveis medidas:

 

O Menino chora, chora,

Chora com muita rezão:

Fizeram-le a cama curta,

‘Tá c'os pézinhos no chão.[3]

 

De resto, S. José poderia não ser mesmo dado a grandes trabalheiras:

 

José, embana o Menino,

Com a mão e não com  o pé;

Esse Menino que embanas

É Jesus de Nazaré.[4]

 

Quem parece que sabia embalar o Menino era a mãe:

 

Esta noite, à meia noite,

Ouvi cantar ao Divino;

Era a virgem Maria
Que embalava o seu Menino.[5]

 

O Menino parece que era um bébé - chorão e tanto chorava por cima como por baixo:

 

O Menino chora, chora,

Chora pelos calçõezinhos.

Calai-vos, ó mê Menino

Faltam-le os botõezinhos.[6]

 

Como todos os bébés, o Menino era um bébé – mijão. Por isso, tinha de mudar de roupa de baixo com frequência, dando muito trabalho à mãe:

 

Cantai, anjos, ao Menino,

Que a senhora logo vem:

Foi lavá-los cueirinhos

À ribeira de Belém.[7]

 

Era cada encharcadela! Molhava não só ao cuerinhos como também a camisinha:  

 

Ó mê Menino Jasus,

Qu'é da tua camisinha?

Tá lá fora na ribeira

Em cima duma pedrinha.[8]

 

Não havia sítio que chegasse para estender a roupa, a ponto de os pastores terem de ser avisados para não arrancar vegetação, não fosse dar-se o caso, de não haver onde estender a roupa:

 

Pastor do gado branco,

Não arranques o rosmaninho,

Pois é onde a Virgem Pura

Estende os cueirinhos.[9]

 

De resto, parece que o menino não era muito esquisito em relação à roupa:

 

- Ó meu amado Menino

Quem Vos deu o fato verde?

- Foi uma moça donzela

Duma doença que teve.[10]

 

Mariolicices também o Menino as faria, a ponto de ter que levar o seu tabefe:

 

- Ó meu menino Jesus

Quem vos deu? Porque chorais?

- Deram-me as moças da fonte;

Não hei-de tornar lá mais.[11]

 

O cancioneiro popular alentejano é um cancioneiro de homens sujeitos ao trabalho sazonal e ao consequente desemprego cíclico. Por isso, é um cancioneiro de homens, muitas vezes com uma barriga vazia, que dá horas, não podendo, por isso mesmo, deixar de reflectir naquilo que as poderia confortar. Para alguns, haveria mesmo que dar de comer ao Menino, sem a própria mãe saber:

 

Ó Menino Jasus,

Quem vos pudera valer,

com sopinhas da panela

Sem a vossa Mãe saber![12]

 

Alguns deviam ter tanta fome, que chegaram  a pôr a hipótese de comer a boca do Menino:

 

Ó mê Menino Jasus,

Boquinha de requêjão:

Quem vo-la comera toda

C'um bocadinho de pão.[13]

 

Outros mais comedidos, limitaram-se a pedir ao Menino para repartir com eles a comida, porque não têm pão:

 

Ó mê Menino Jasus

Da Lapa do coração,

Dai-me da vossa merenda,

Que a minha mãe não tem pão.[14]

 

Ou até porque não têm mesmo nada para comer:

 

Ó meu amado Menino,

Boquinha de marmelada,

Dai-me da vossa merenda,

Que a minha mãe não tem nada.[15]

 

Chegam mesmo ao ponto de querer  saber, onde é que o menino arranjou a comida que tem naquele momento:

 

Ó mê Menino Jasus,                   

Quem te deu essa boleta?           

Foi a minha avó Sant'Ana         

Qu'a tinha lá na gaveta.[16]

 

Outros, mais imaginativos, talvez pensando naquilo que não têm, pintam um menino empanturrado com aquilo que o porco e a terra dão:

 

Olha o Deus Menino,

Nas palhinhas deitado,

A comer pão e toicinho

Todo besuntado![17]

 

Este o cancioneiro popular que temos e de que nos devemos orgulhar, por ser parte integrante da nossa memória colectiva e da nossa identidade cultural, que urge preservar e transmitir às gerações mais novas.



[1] Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.

[2] Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português, vol. III, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983.

[3] Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.

[4] Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[5] Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[6] Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.

[7] Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[8] Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.

[9] Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.

[10] Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[11] Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[12] Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[13] Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.

[14] Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[15] Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.

[16] Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.

[17] Estremoz. Recolha de Hernâni. Matos. Anos 60.   

MÚSICA: NATAL DE ÉVORA (Popular)

Ficheiro midi de Fernando de Brito Vintém

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