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 QUANTO VALEM OS SELOS?

O DRAMA DOS SELOS

Trabalho da Jornalista Teresa Cotrim

Suplemento “DINHEIRO” do Jornal de Negócios de 16 de Junho de 2006

 

Apesar do escândalo dos selos é interessante verificar que no leilão filatélico de 3 de Junho realizado no Porto os preços mantiveram-se. Não caíram. Daí ser importante distinguir filatelia de investimento da de coleccionismo.

 A bomba do investimento em selos rebentou no dia 22 de Maio de 2006 em Espanha. Os estilhaços chegaram a Portugal, deixando um rastilho de alerta. Afinsa e Fórum Filatélico estão na mira de todos. Acusados de burla e de praticarem um esquema de venda em pirâmide, esta história é daquelas que se pode dizer: ainda a missa vai no adro. Após um mês detidos, os quatro elementos da Afinsa saíram em liberdade, dia 7 de Junho, sem caução. O responsável do Fórum Fi­latélico abandonou a prisão mais cedo mas pagou para sair em liberdade condicional. Quem é ou não culpado? O que realmente se passa? Ninguém sabe ao certo!

 

COLECCIONAR SELOS

Enquanto não se esclarece este escândalo é importante separar as águas. Sempre que há uma tempestade, o mar fica revolto e  a água turva. É, pois importante olhar para o mercado filatélico à lupa e começar por distinguir coleccionismo de investimento. São dois ramos completamente diferentes. O mercado filatélico ligado ao coleccionismo continua vivo apesar da guerrilha, claro que houve baixas e alguns feridos, mas segundo os especialistas da área ainda não houve mortos.

O número de investidores em selos em Portugal ronda os 15600, isto porque são 12 mil da Afinsa e 3600 do Fórum Filatélico, segundo números avançados por ambas as empresas. O número de coleccionadores é muito mais elevado. Só nos CTT são 16 mil, fora os da Afinsa e os inscritos nas diversas associações, incluindo a Federação Portuguesa de Filatelia. Na Europa rondam os 30 milhões e no mundo há cerca de 1,5 mil milhões de coleccionadores.

Veja ainda o bom exemplo dos Correios de Portugal (CTT). Pode dizer-se que estes operam em três mercados: o balcão onde vendem carteiras de selos, selos do dia, livros, entre outros, produtos compostos que incluem moedas comemorativas da casa da Moeda. Possuem ainda o clube do coleccionador e os filatelistas com conta corrente que conjuntamente representam cerca de 16 mil membros - são um conjunto de pessoas com uma conta corrente que recebe sempre as novas emissões e a literatura sobre o tema. Só para ter uma ideia a filatelia representa no bolo dos CTT, 12 milhões de euros nas três vertentes. Por fim, a terceira área do negócio da filatelia nos CTT é o mercado internacional, ou seja os selos nacionais vendidos a coleccionadores estrangeiros.

Aqui o Philagroup, empresa do Grupo Afinsa especializada na área de coleccionismo de filatelia - que era quem comprava selos nacionais aos CTT tinha um papel importante, pois servia de broker entre os diversos países. Já tinha urna boa rede de distribuição. Aliás, esta problemática representa um corte de 1,5 mil milhões de euros de facturação para os operadores postais, emissores de selos de todo o mundo. Não é só de Portugal, note-se!

No entanto, a política dos correios portugueses tem passado por criar laços e parcerias com as entidades que representam as emissões postais no seu país. Por exemplo em Macau e até à solução da soberania pela República Popular da China os correios portugueses criaram uma actividade de bandeira. Por isso, a sua estratégia passa cada vez mais por expandir o negócio filatélico através de parcerias directas. Quanto ao Fórum Filatélico não se consegue estipular o montante pois estes não compravam directamente aos CTT mas sim a terceiros. Além de que a sua temática era essencialmente a Europa.

 

PRÉMIOS INTERNACIONAIS

A actividade filatélica de emissão de selos num país tão pequeno como Portugal tem sido recorrentemente premiada internacionalmente com grandes prémios de qualidade, incluindo, por várias vezes o de melhor selo do mundo para os CTT, caso do selo do quiosque do Tivoli desenhado pela pintora Maluda, entre outros. Também estas recompensas atribuídas por organismos independentes não deixaram de contribuir para a apreciação do selo nacional.

Raul Moreira, responsável pela área filatélica dos CTT e um grande conhecedor deste tema, explica que os coleccionadores clássicos procuram fazer uma colecção para ganhar medalhas. Investem tempo indo a leilões e a concursos. "Vivem em função da sua colecção". E, se calhar não há mais de 1000 em todo o mundo que tenham conhecimentos suficientes, dinheiro em quantidade para investir neste hobby e tempo para se dedicarem à investigação e procura das peças filatélicas. Estes são aqueles que realmente adquirem peças de excelência. O interessante é verificar que o selo novo é um bem acessível. As no­vas emissões são taxadas de acordo com o Estado. É este que aprova o recibo que comprova o transporte postal. Qualquer pessoa pode começar uma colecção sem arruinar a carteira.

O suplemento de Dinheiro do Jornal de Negócios saiu à rua e falou com quem está nesta área há mais de 20 anos. E analisou em profundidade a outra face dos selos: a do coleccionismo. Foi ao Porto falar com José Miranda Mota, o presidente do Instituto de Expertização de Filatelia (INEXFIP) e um dos técnicos que participa na elaboração do catálogo da Afinsa. Entrevistou ainda alguns comerciantes e leiloeiros. Além disso, esteve nas instalações do Fórum Filatélico que foram vedadas à entrada de jornalistas. Ouviu a opinião da Federação Portuguesa de Filatelia e de Raul Moreira, especialista de filatelia dos CTT para apurar a outra face desta história.

Eram mais ou menos 14 horas quando José Miranda da Mota se deslocou à estação de Campanhã no Porto carregado com uma enorme pasta de cabedal recheada de bibliografia. Almoçamos num restaurante do outro lado da rua junto à estação dos comboios. Estava um calor abrasador e em cima da mesa além das garrafas de água começaram a empilhar-se catálogos de selos. O velhinho de 1918 já manchado pelo tempo... até ao último de 2006 feito pela Afinsa. A par da literatura portuguesa, o coleccionador de selos exibia ainda catálogos estrangeiros, destacando o famoso Yvert & Tellier, francês.

 

SOBREVALORIZADOS OU NÃO?

Foi, então que surgiu a questão: os selos estão sobrevalorizados? José Miranda Mata respondeu: "No catálogo português não" e bastou fazer uma pequena comparação para o provar. Pegando nos mesmos selos em catálogos de anos diferentes verificou-se em primeiro lugar que havia discrepância entre os preços praticados em Lisboa e Porto, os do Norte eram um pouco mais elevados. Depois que desde sempre houve aumentos significativos de ano para ano. Que os selos sempre valorizaram acima da inflação, em média 20% a 30% quando não era em alguns casos 99% ao ano. E, em épocas em que a inflação era baixa tal como agora.

Pedra Vaz Pereira, Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia também garante que os preços não têm estado inflacionados. Após esta entrevista o INEXFIP resolveu fazer um estudo mais aprofundado, que publicamos nas páginas seguintes. Os resultados são no mínimo curiosos: os selos nunca valorizaram tão pouco: entre 4,5% e 5%. Daí ter de distinguir-se entre a valorização feita nos produtos estruturados e no selo como activo independente.

 

UM, DOIS, TRÊS... VENDIDO!

Outro dado curioso são os leilões. O último aconteceu na semana passada no hotel Meridien, no Porto e foi organizado por João Pedro Figueiredo. Este antigo comerciante de selos garante: "A filatelia de colecção não sofreu diminuição. Apareceram o mesmo tipo de pessoas e os preços seguiram a normalidade." E continua: "Os selos de colecção valorizam sempre. Isto porque há que distinguir filatelia de colecção e de investimento. A primeira engloba selos de Portugal, Colónias, cartas, história postal... E esta nunca falha. A de investimento aposta em selos de 40 para a frente e aí podem surgir problemas."

Para estudar bem o assunto fez-se uma comparação do preço de arrematação de lotes idênticos num leilão de 26 de No­vembro de 2005 e o último dia 3 de Junho de 2006 desta leiloeira. A correspondência foi estabelecida entre lotes de selos sensivelmente nas mesmas condições de qualidade e características técnicas (papel, denteado, tipo e estado - novo ou usado) vendidos nestes dois leilões. O quadro abaixo evidencia que treze dos vinte lotes foram vendidos no leilão de 3 de Junho a preços superiores aos atingidos no de 26 de Novembro. Contudo, como a diferença não é significativa, poder-se-á concluir que estamos perante uma situação de relativa estabilidade no mercado, pelo menos no que respeita a este tipo de material.

 

 

No entender de João Pedro Figueire­do tem sido dito muita coisa sem conhecimento da área. A filatelia tem 150 anos. "Os investidores colocam o dinheiro onde vêem rentabilidade. Querem lá saber se estão a investir em selos ou em por exemplo em feijões", compara. João Pedro Figuei­edo esclarece ainda que os leilões de Verão são sempre mais fracos do que os do Outono. Isto porque os coleccionadores vão de férias e têm família, logo o dinheiro não estica! Segundo afirmou ao Jornal de Negócios Paulo Dias, da leiloeira P. Dias a negociação em selos poderá ser afectada, mas será um efeito de curto prazo, pois os investidores irão perceber a diferença entre coleccionismo e os produtos comercializados pelas empresas que gerem fundos de investimento sobre este género de bens tangíveis.

 

OS CATÁLOGOS...

Para João Pedro Figueiredo o desaparecimento do catálogo em vigor pode ser problemático. "Desde que a Afinsa pegou nos catálogos em 1988 passou a haver profissionalização. Penso que havia cuidado na avaliação dos selos". "Antigamente quem fazia os catálogos não tinha em conta os stocks, nem a lei da oferta e da procura, nem a opinião de vários comerciantes. Agora reflectia a realidade do mercado", diz Pedro Vaz Pereira, presidente da Federação Portuguesa de Filatelia. Está um pouco mais apreensivo: "Se as autoridades resolverem liquidar a existência dos selos das duas empresas em causa e os colocarem no mercado haverá um crash". João Pedro Figueiredo não acredita que isso aconteça. Na sua opinião se algo suceder mas for gerido com cautela o mercado absorverá tudo."

 

QUEM GANHA E QUEM PERDE COM ESTE ESCÂNDALO?

 Perdem os investidores, os operadores postais e emissores de selos e coleccionadores de todo o mundo. Ganham os investidores financeiros credenciados que acabam por receber o dinheiro dos aforradores que perdem a confiança neste tipo de activos.

 

QUEM SUPERVISIONA AS EMPRESAS DE BENS Tangíveis?

 Esta história é de facto inacreditável. Ou estas empresas já eram antes ilegais ou então nunca o foram. Se o eram, então o Estado tem culpas no cartório por ter lavado as mãos durante tantos anos e não ter tomado medidas antes de rebentar a bomba. Se não o são, a forma violenta como o Governo espanhol actuou, pode estoirar com este mercado. Parece que rebentou a bolha nos selos. Mas afinal quem supervisiona este negócio de produtos estruturados de bens tangíveis?

Este tipo de sociedades comerciais está sob a fiscalização da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE), a ex-Inspecção Geral das Actividades Económicas. Mas não sob o seu licenciamento ou tutela. Estas empresas estão registadas como sociedades estritamente comerciais e não financeiras. Ou seja, não são instituições de crédito, sociedades financeiras ou organismos de investimento colectivo e, por isso não estão sujeitas a registo junto do Banco de Portugal ou à Comissão de Mercados e Valores Mobiliários (CMVM), nem à sua respectiva supervisão.

A CMVM, criada em Abril de 1991, tem como missão de supervisão e regulação dos mercados de valores mobiliários e instrumentos financeiros deriva­dos e a actividade de todos os agentes que neles actuam. Por ser um organismo público independente, com autonomia administrativa e financeira, garante a transparência e o bom funcionamento dos mercados, logo o investidor tem a garantia de estar a actuar num mercado seguro. Ao Banco de Portugal cabe garantir a estabilidade e a solidez do sistema financeiro, de modo a assegurar a eficiência do seu funcionamento, a segurança dos depósitos e dos depositantes e a protecção dos consumidores de produtos financeiros. No caso dos investidores investirem na banca estão protegidos por um fundo de garantia de depósitos.

A Afinsa está registada na Direcção Geral dos Registos e do Notariado (DGNR) de duas formas: Afinsa Investimentos Sociedade de Promoção de Investimentos em Bens Tangíveis com o número de registo 74842, e como Afinsa Investimentos Sociedade Filatélica com o registo número 610990.

 
 

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