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QUANTO VALEM OS SELOS?

O DRAMA DOS SELOS

Trabalho da Jornalista Teresa Cotrim

Suplemento “DINHEIRO” do Jornal de Negócios de 16 de Junho de 2006

 

QUANTO VALE UM SELO?

O preço depende da oferta e da procura, apesar de haver catálogos nunca se paga o valor estipulado. Curioso: nunca os selos valorizaram tão pouco! Um estudo exclusivo feito pelo  INEXFIP revela que actualmente rondam os 4,5% a 5%.

Pode dizer-se que o valor de um selo depende. Depende de quem o avalia, depende de quem está disposto a pagar x por ele, depende da raridade, depende de inúmeros factores. Joaquim Maçãs, da Filatelia Joaquim Maçãs explica: "A nível de preços existem catálogos que funcionam como guia de referência, mas os preços podem variar pela oferta e procura, ou pela raridade". Pedro Vaz Pereira, presidente da Federação Portuguesa de Filatelia refere: "Os catálogos são propriedade dos comerciantes. E ganha mercado aquele que praticar os preços mais elevados". Daí os valores serem apenas de referência. Por isso, caso o catálogo da Afinsa deixe de circular, alguém irá tomar as rédeas deste activo. Pedro Vaz Pereira assegura que a Federação não irá fazer nenhum catálogo. E se não houver um catálogo quem perde são os coleccionadores, pois os preços de referência são fundamentais para haver o mínimo de regulamentação. A verdade é que sempre existiram grandes disparidades das cotações, iInclusive, entre Lisboa e Porto. E, se pensa que é um caso recente, desengane-se. Desde 1918 que os preços estão à mercê de quem avalia o selo. Naquela época já podia ler-se na primeira página de abertura do catálogo Simões Ferreira, um comerciante do Porto que os selos em 1919 sofreriam um acréscimo de 30%. Quem estipulava? Os comerciantes da altura. "O problema da sobrevalorização dos selos pode estar na temporalidade, ou seja enquanto um coleccionador tem uma colecção ao longo dos anos e nela tem selos que valem seguramente mais do que custaram, no caso dos selos mais recentes isso não acontece", explica Pedro Vaz Pereira. Há de facto selos muito valiosos, caso dos selos clássicos até à 1ª República (1853-1940). Convém é estar dentro do tema para não comprar gato por lebre.

O Instituto de Expertização de Filatelia Portuguesa (lNEXFIP) resolveu fazer contas. Pegou em catálogos do A. Simões Ferreira, do Eládio Santos e do Núcleo Filatélico do Ateneu Comercial do Porto/Afinsa e fez um estudo comparativo e evolutivo da valorização média anual em percentagem de alguns selos emitidos de 1853 a 1970. Utilizou um espaço temporal de cinco anos. Os exemplares seleccionados reportam-se a várias épocas, desde o período do aparecimento do selo até 1970. Foram escolhidos de forma aleatória mas procurando que fossem testados selos emitidos com intervalos de cerca de 15 a 20 anos. Outro critério foi utilizar algumas séries significativas, caso da série Europa e Otan, da Organização Tratado Atlântico Norte, a que mais se valorizou nos últimos 55 anos.

No caso do A. Simões Ferreira os anos são os seguintes: de 1961 a 1966, de 1966 a 1971, de 1971 a 1976 e de 1976 a 1981. As conclusões são claras: no caso do selo 1895 S. António nos primeiros cinco anos aumentou 12%, depois 19,3%, 17,1% e 26,7% ao ano. O 1952 - 0tan, série valorizou 40%, 24,4%, 20% e 70,5% ao ano. O selo 1970, Europa chegou a aumentar 99% ao ano.

 

 

Quanto a Eládio Santos, comerciante de Lisboa a análise foi feita de 1970 a 1975, de 1975 a 1980, de 1980 a 1985 e de 1985 a 1990. Se pegarmos em dois exemplos, na tabela tem outro, poder-se-á ver que um selo de 1853, D. Maria II, série nos primeiros cinco anos valorizou 12% ao ano, depois 17,5%,37,8% e 13,8%. Outro exemplo, o 1895 de S.to António, série cresceu 19,8% ao ano nos primeiros cinco anos, depois 13,2%, 25% e 9,6%.

 

 

Uma coisa é certa. As cotações de A. Simões Ferreira, em relação ao mesmo período, valorizam sempre mais relativamente ao Eládio dos Santos. Porém, o A. Simões Ferreira chegou a tentar estabelecer a regra dos preços líquidos, inclusive escreveu a bold na capa do seu catálogo mas em vão.. Ele próprio implementou esta regra na sua casa comercial, o Mercado Filatélico do Porto. Mas ninguém o seguiu. Acabou por abandonar o sistema.

Dados mais recentes. Pegando no catálogo do Ateneu do Porto/ Afinsa de 2006, e fazendo uma análise de 1985 a 1990, de 1990 a 1995, de 1995 a 2000 e de 2000 a 2005 verifica-se que o mesmo selo 1853 de D. Maria II valorizou 26,2% ao ano nos primeiros cinco anos, depois 19%, 4,5% e 4,9%. O 1895 S.to António, série aumentou 12%, 18,8%,7,6% e 5,4%.

 

 

Números que não deixam margem para dúvidas de que este negócio sempre teve oscilações e margens muito elevadas! (veja a este propósito as tabelas abaixo). Segundo o INEXFIP na maioria dos casos em estudo nota-se um incremento anual nas cotações dos selos superior aos registados nos últimos 20 anos. A mesma fonte refere ainda que "esta análise prova que há uma tendência nítida, sobretudo a partir de 2000 para uma diminuição da percentagem de valorização anual dos se­los, cifrando-se nos 4,5% a 5%, em contraste com anos anteriores."

Um selo é essencialmente um "recibo de um serviço a cobrar", define o livro O Elogio do selo. "É, na terminologia administrativa uma fórmula de valor postal, a que, se agrega a possibilidade de ser, graficamente ilustrada." Daí o selo ser também uma obra de arte. É universal: chega a todos os países, a todas as etnias, a todos os estatutos sociais e a todos os regimes políticos. É um bem acessível a todas as bolsas. Todas estas características fazem dele um bom activo. O selo é procurado em todo o mundo. Não está circunscrito a um só país.

Pode dizer-se que o selo tem duas vidas. A primeira que deriva do seu estatuto, cumprindo a função de elemento do sistema postal. Aqui é usado sem consideração. Colado ao acaso nas cartas, manchado pela máquina de obliteração e deitado fora ao mesmo tempo que o invólucro. Mas há outra vida além desta. Por vezes é resgatado cuidadosamente do lixo e amorosamente cuidado, estudado, cobiçado e guardado religiosamente nos álbuns dos coleccionadores e dos museus. Por estes é considerado obra de arte, documento precioso com um valor considerável. Eis outro trunfo do selo.

Os filatelistas (estudiosos de selos) e os coleccionadores são os grandes responsáveis por este se ter tornado num bom activo financeiro, pois estão dispostos a pagar um preço justo para melhorar a sua colecção. E neste momento são já 30 milhões de coleccionadores só na Europa. Depois há ainda novos mercados a emergir caso do Brasil, Rússia, Índia e China, com elevado poder de compra, os quais procuram a garantia de activos que podem ser facilmente comercializados e transportados.

Os comerciantes de selos são peremptórios. Fernanda Cunha, da casa Filatelia Simarro garante: "O recente problema com o comércio dos selos não afectou a actividade, os coleccionadores não são influenciados. São conhecedores e sabem o que querem comprar e não compram com a intenção de vender".

Joaquim Maçãs, da Filatelia Joaquim Maçãs reforça a ideia e compara: "A perspectiva de um coleccionador de selos pode comparar-se a um coleccionador de cromos. Estamos no Mundial de futebol. Muita gente vai comprar os cromos para ficar com as equipas todas, os jogadores... mas de certeza que não está a pensar vendê-los mais tarde..." E continua: "Vende-se mais quantidade do que raridade. É um bocado ilusão pensar-se que se compram selos de muitos milhares de euros." Por tudo isto, o selo continua vivo.

 

Quanto à Forum Filatélico?

A política desta empresa foi manter o silêncio em todo o processo, porém deu ao Jornal de Negócios alguns esclarecimentos. A Fórum Filatélico foi fundada em Madrid, em 1979. Nos seguintes anos de 1980, 1981 e 1984 foram abertas as delegações de Barcelona, Valladolid e Vigo. Em Portugal a empresa foi constituída no ano de 1988, com a denominação social de Fórum Iniciativas de Gestão, SA, desenvolvendo diversas actividades como a gestão e transacção de valores filatélicos, produção e distribuição videográfica, produção e distribuição de produtos cartográficos e edição e distribuição de enciclopédias e cursos.

Em 2003 procedeu-se à mudança de nome para Fórum Filatélico, (Iniciativas de Gestão) SA, centrando-se a actividade da empresa na gestão e transacção de valores filatélicos.

A Fórum Filatélico, (Iniciativas de Gestão) S.A. é uma empresa portuguesa, registada com a matrícula n.º 30 da Conservatória do Registo Comercial de Lisboa e tem 3600 contratos filatélicos. Quanto à lei que rege este negócio, em Portugal não existe qualquer lei que regule especificamente a gestão e transacção de valores filatélicos nos moldes em que o fazemos, uma vez que este tipo de negócio não se identifica com o mercado dos activos financeiros e como tal, não se pode reger pela mesma legislação.

Uma das críticas é que não existem activos, isto é, que o cliente não compra mesmo o selo. A Fórum Filatélico responde: “Garantimos que essa informação não é correcta, uma vez que todos os clientes que compram a filatelia têm a possibilidade de a guardar em sua posse. Aqueles que preferem que os valores filatélicos fiquem à guarda da Fórum Filatélico, podem a qualquer momento ver ou proceder ao levantamento dos mesmos, deslocando-se nessa altura às nossas instalações:”

Mas afinal onde estão os selos? “Os selos encontram-se depositados numa Caixa Forte, numa dependência da Fórum Filatélico, construída única e exclusivamente para esse efeito e obedecendo às mais exigentes normas de segurança e conservação de filatelia.” E termina: “Sempre cumprimos os compromissos que assumimos com os nossos clientes!” Por explicar ficou como funciona o negócio, pois apenas descreveram os produtos, que catálogos utilizam e como se valorizam os selos.

 
 

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