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 QUANTO VALEM OS SELOS?

O DRAMA DOS SELOS

Trabalho da Jornalista Teresa Cotrim

Suplemento “DINHEIRO” do Jornal de Negócios de 16 de Junho de 2006

 
 

OS PREÇOS DOS CATÁLOGOS SÃO DE REFERÊNCIA. TEMOS SEMPRE DE NEGOCIAR.  

José Miranda é o presidente do Instituto de Expertização de Filatelia Portuguesa, a entidade que define a parte técnica do catálogo da AFINSA.

Coleccionador há 50 anos o ex-professor universitário conta a história de como nasceram os catálogos em Portugal.

  

 

Jornal de Negócios: É coleccionador de selos?

José Miranda Mota: Sim, desde os dez anos. A minha mãe era professora primária e pedia selos para as missões. Foi assim que comecei.

 

Qual foi o primeiro selo que comprou?

Os selos de Portugal dos cavalinhos e da década de 50.

 

Quantos selos tem?

Não faço ideia. De Portugal tenho todos, depois tenho muitas colecções, como é o caso da marcofilia (carimbos numéricos da primeira e segunda reformas postais). Possuo também muita coisa de outras colecções de história postal.

 

Quanto já investiu?

Não consigo calcular. Ao longo de 50 anos é impossível contabilizar. Fui comprando mas nunca fiz grandes "gastos" de uma só vez. A peça mais cara que comprei foi há doze anos e custou-me cerca de 500 contos.

 

Compra sempre as novas emis­sões?

Sempre. Tenho uma assinatura com os correios. Dei o número do meu Visa e os CTT mandam-me sempre as novas emissões.

 

Onde costuma comprar selos?

Nos leilões de todo o mundo e nos comerciantes. Em Portugal nos leilões Paulo Dias, Pedro Figueiredo, Clube Filatélico Portugal, Sérgio Simões e Afinsa. Depois há ainda os comerciantes em Lisboa e Porto. A nível internacional recorro por exemplo ao António Torres e Solary LLach, em Espanha, Grosvenor, na Inglaterra, David Delhaye na Bélgica, Postiljonen, na Suécia e Michael Rogers, dos Estados Unidos.

  

E como compra? A que preços?

Há leilões e há preços fixos... Mas varia muito. O preço dos catálogos é apenas de referência. Os coleccionadores já sabem isto. Por isso, temos de decidir quanto estamos dispostos a despender para a nossa colecção.

 

Portanto, nem sempre os preços são fixos.

É verdade. Há catálogos com preços fixados onde vêm as características técnicas do selo (desenho, gravura, impressão, folhas, circulação, papel e denteado) e, claro o preço do selo mas cabe ao coleccionador tentar comprar ao melhor valor. No caso dos leilões há um montante de partida e compra o coleccionador ou investidor que oferecer mais. A verdade é que já desde 1978 o catálogo A. Simões Ferreira colocou em destaque na capa "Preços líquidos". Em vão. Não pergunte porquê, pois não sei explicar!

 

Os valores do catálogo são sempre negociados? Há quem compre com desconto de 20% do preço de catálogo, outros a 40%, 50% e até 80%?

Sim. No caso da Afinsa eram feitos descontos de 20% relativamente ao valor de catálogo. Os outros comerciantes variam. Depende da lei da oferta e da procura. Por exemplo, o preço dos selos das ex-colónias. Dificilmente se conseguem adquirir neste momento a um valor abaixo do preço de catálogo porque a última edição que saiu foi de 2002. O mesmo acontece com o tema Europa nos selos de Portugal, apesar de todos os anos existirem catálogos. Outro dado relevante é que os preços estão sempre arredondados e a verdade é que o preço de catálogo não passa de uma referência. Um outro factor importante é que o seu valor também depende do preço que o comerciante pagou pelo selo.

 

Isso também se passa lá fora?

Passa. Só para ter uma ideia em 1993 estive numa feira em Stuttgart e já nessa altura comprava selos da Alemanha 10% a 20% do preço de catálogo, ou seja com descontos de 80%. É uma prática dos coleccionadores. Penso que estão habituados a negociar.

 

Quem faz os catálogos de selos?

A 1." edição portuguesa surgiu em 1918. Foi feita por A. Simões Ferreira (pega nela e mostra que em 1975 este livro lhe custou 3.000$00), a um comerciante do Porto. Nesse mesmo catálogo pode ler-se na primeira página em letras gordas "vendas mais 30% de aumento para 1919".

 

 

O catálogo de A. Simões e Ferreira de 1979 já falava na valorização dos selos portugueses?

Exactamente. E Cita: “Os selos portugue­ses tiveram grande evidência nos leilões estrangeiros, nomeadamente em Frankfurt, Alemanha, em Abril passado (1978). A gravura que apresentamos na capa atingiu o preço de 300 contos. Outros selos e blocos de selos atingiram preços que deixaram surpreendidos quase todos os que andam ligados à filatelia: sinal positivo do selo português? Espero bem que sim! (...)” E mais abaixo pode ler-se ainda: “Não falo do preço fixo tão evidente se torna a sua prática que a não adopção só servirá para entravar o desenvolvimento da filatelia.” Isto escrevia-se em 1979!     

 

Então os selos sempre valoriza­ram muito nos catálogos mesmo antes deste escândalo da Afinsa e do Fórum?

Sim. Exemplos? Em 1978, um selo cem reis, D. Maria II, novo custava 150 contos, em 1979 passou a valer 180 contos. Aumentou 20%. Um D. Manuel, série 14 selos em 1978 valia 1.600$00, em 1979 cotava-se a 2000$00. Valorizou igualmente 20%. Ou seja, se analisarmos todos os catálogos podemos deduzir que as valorizações oscilam entre os 0% e os 30%.

 

Há quem diga que os valores diferiam de Lisboa para o Porto. É verdade?

É fácil ver se é verdade. Vamos analisar dois catálogos. Ambos de 1923. Um selo de cinco reis de D. Maria II, novo, no catálogo do Manuel Myre, de Lisboa cotava 300 escudos e no A. Simões Ferreira, do Porto, 450 escudos. Um selo de cinquenta reis de D. Maria II, no mesmo catálogo de Lisboa cotava 750 escudos e no Porto 1000 escudos. Um selo novo de 1000 reis de D. Manuel II cotava 1$60 e, no Porto, 2$50. Em termos de percentagem é uma variação brutal. Nesta época era verdade, mas se virmos em 1986, por exemplo, um cinco reis D. Maria II, novo, cota em ambas as cidades 150 contos e o de cinquenta reis cota no Eládio de Santos, em Lisboa, 200 contos e no Núcleo Filatélico Ateneu Comercial do Porto, 225. Outros exemplos, reportando-me ainda aos catálogos do ano de 1986: o selo novo de 100 réis de D. Manuel II cotava 700$00 em Lisboa e 800$00 no Porto, mas um 5 réis D. Luís I, emissão Borja Freire, já tem uma variação brutal: em Lisboa cotava-se por 4800$00 e, na Invicta, por 9500$00. Com o passar dos anos a diferença dos valores foi diminuindo.

 

 

Comenta-se que os comerciantes na altura regulavam-se pelos catálogos mais caros?

(risos) Sei que por vezes quando tentava comprar pelo preço do catálogo mais baixo diziam-me que não tinham o selo. Parece que um editor do Porto e um de Lisboa olhavam para o selo de forma distinta.

 

Quem determina as cotações dos selos?

Os comerciantes. Em todo o mundo. Não é excepção em Portugal. São eles os grandes interessados em catalogar os preços dos selos.

 

Mas como determinam os preços?

Não faço ideia mas penso que é em função da inflação e da lei da oferta e da procura.

 

Quem fez mais catálogos em Portugal antes da Afinsa?

Eládio Santos, em Lisboa, que em 1981 ficou sozinho no mercado. Foi quando surgiu o catálogo do Núcleo Filatélico do Ateneu Comercial do Porto. A 1ª edição deste sairia em 1984 com a edição de 1985. Isto porque os catálogos saem em Setembro com a data do ano seguinte. E havia ainda o catálogo de Manuel Myre em Lisboa. Só mais tarde, em 1988 é que a Afinsa começou a fazer o catálogo com base no historial já feito e com orientação técnica do Núcleo Filatélico Comercial do Porto.

 

Fez parte da elaboração do catálogo do Ateneu?

Sim. Era sócio. O grande mentor era o já falecido Armando Vieira, um grande conhecedor e coleccionador de selos. Depois da sua morte foi criado o INEXFIP, ou seja Instituto de Expertização de Filatelia Portuguesa para realizar estudos e análises de selos, peças de história postal e de quaisquer outros bens filatélicos de colecção, determinando a sua autenticidade, qualidade e avaliação, podendo para o efeito emitir relatórios, pareceres e certificados com o objectivo geral de promoção e defesa da autenticidade da filatelia portuguesa e sua valorização.

 

De que é presidente?

Sim. E do qual fazem parte ainda Fernando de Oliveira Pinto, Manuel Ângelo Domenech Lima Torres e Maria Isabel Coutinho Vieira. Todos coleccionadores e especialistas em filatelia portuguesa.

 

É esta associação que faz o parecer técnico do catálogo da Afinsa?

Exactamente. Fazemos as páginas sobre as notas técnicas caso do tipo de papel, impressão, cunhos, goma, denteado, mar­cas postais e carimbos. No mesmo catálogo fala-se ainda das reimpressões, dos critérios de qualidade e das cotações...

 

E quem faz as cotações do catálo­go actualmente em vigor?

O Comité Técnico da Afinsa. Nós não temos nada a ver com os valores. Só com a qualidade do selo.

 

Mas o texto de introdução das cotações que vem na pág. 19 do catálogo da Afinsa é igual ao de 1986?

E verdade. Não é nada inventado. No fundo seguiu-se o que se tem vindo a fazer desde 1918.

 

Os catálogos são todos os anos actualizados?

Sim. É um produto que resulta da acumulação de produtos. No caso português tem todos os selos nacionais que existem. Todos os anos são acrescentadas as novas emissões e cotados.

 

Há catálogos internacionais?

Claro. Os portugueses regem-se muito pelo Yvert & Tellier, francês. Este tem uma edição especial de 2005 sobre os selos de todo o mundo desde 1840 a 1940. Mas há outros catálogos como o americano Scott, o alemão Michele, o inglês Stanley Gibbons, só para mencionar alguns.

 

 

E os portugueses são iguais?

Não. Todos os países desvalorizam os preços dos selos dos outros. Os selos portugueses não escapam. O curioso é que quando um coleccionador tenta comprar um selo nacional lá fora orientando-se pelo preço do catálogo estrangeiro há sempre quem exiba o preço do catálogo português.

 

Também é jurado em competições de selos?

Sou. Há exposições de selos nacionais e são atribuídas medalhas de acordo com a pontuação alcançada: vai de 0 a 100 pontos. A medalha de ouro grande entre 90 e 100 pontos, a de ouro oscila entre 85 e 89, a de prata dourada entre 75 e 79, prata dourada grande entre 80 e 84 pontos, a de prata entre 65 e 69, a prata grande entre 70 e 74. Por fim, a de bronze de 55 a 64 pontos. Depois ainda há os diplomas.

 

Como são feitas essas exposições? Sobre que temas?

Há várias classes filatélicas: tradicional, história postal, literatura filatélica, astrofilatelia, maximafilia, inteiros postais, aerofilatelia, selos fiscais, juventude, temática, um quadro e classe aberta. As colecções são apresentadas e estruturadas a partir de um plano elaborado pelo filatelista.

 

Continua a acreditar no selo como investimento?

Continuo. Mas gostaria de realçar que é importante saber avaliar que selos se compram. Para isso é fundamental falar com expertizes. Em Portugal a Federação Portuguesa de Filatelia atribuiu esse papel à leiloeira Paulo Dias e ao Instituto de Expertização de Filatelia Portuguesa.

 

E o próximo catálogo sai?

A parte técnica está pronta mas... Não sei de nada!

 

E se os catálogos acabarem? Como se regulará o mercado?

Terá reflexos negativos no mercado porque deixa de haver um valor de referência actualizado. O que não é bom para os comerciantes e penso que também não é bom para os correios, pois deixam de apresentar as emissões que vão saindo. Os catálogos todos os anos introduzem páginas com as novas emissões. Estes passam a vender menos. Por enquanto... Os filatelistas têm o anterior mas também não é bom porque é um importante elemento de apoio e de orientação. O catálogo acaba por regular os preços.

 
 

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