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MEMÓRIAS DOUTROS TEMPOS |
Hernâni António Carmelo de Matos |
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A IGREJA DE SANTO ANDRÉ |
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Se bem que não me lembre e não é caso para menos, pois então era ainda uma criança de colo, o meu baptismo de fogo, terá sido quando a madrinha Augusta, uma velha solteirona, madrinha de minha mãe, me deixou cair na braseira. E se o fogo me não marcou então o corpo, disparou em mim o instinto da sobrevivência, ao accionar - segundo dizem - um choro descomunal, daqueles de fazer inveja a qualquer carpideira profissional. Puxei tanto pela palheta, que acabaria por ficar com bom pulmão e simultaneamente com uma voz de ferrabrás, capaz de se fazer ouvir debaixo da maior tormenta, mas incapaz de servir os desígnios vocais do mais modesto grupo coral. Por isso, no já distante ano de 1953, o padre Serafim Tavares, então pároco de Santo André, ordenou-me que fizesse de mudo durante os cânticos da primeira comunhão. Foi este o meu primeiro papel no teatro e o único que agradou bastante ao público. Um local onde eu brincava era a Igreja de Santo André, imponente igreja que existia na Rua 5 de Outubro ou da Rainha D. Amélia, como lhe queiram chamar - República ou Monarquia tanto faz e é irrelevante. O que é importante - isso sim - é denunciar junto de quem eventualmente não o saiba, que em nome do pseudo-progresso, os senhores do Governo de então, mandaram nos anos sessenta derrubar a Igreja, para ali mandarem construir aquele horrível imóvel que lá está, ao qual muito pomposamente fizeram chamar Palácio da Justiça. De qual Justiça, se esse foi um dos piores crimes cometidos em Estremoz? A voragem do camartelo, ao destruir um monumento que já não era usado no culto, destruiu um lugar onde putos como eu iam à catequese e jogavam à bola, com bola de trapos ou de borracha, conforme as posses dos pais de cada um, mas sempre democrática e temporalmente protegidos das intempéries. E que bom que era, em dias de chuva, brincar na Igreja de Santo André. |
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LARGO DO
ESPÍRITO SANTO | |
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Nos anos 40-50 ainda não existia em Estremoz, a distribuição
domiciliária de água. Em contrapartida, havia uma figura muito popular -
o aguadeiro - que se abastecia
nas fontes, indo depois levar água aos clientes certos que tinha. Quando
eu morava no Largo do Espírito Santo, um dos aguadeiros no activo era o ti Joaquim, pessoa que eu muito
admirava e de quem muito gostava, pois nas suas idas e vindas à Fonte das
Bicas, no Largo General Graça, levava-me sempre a passear no seu carro
puxado por um pachorrento jerico. Aí, onde eu morava, no Largo do Espírito Santo, havia um chafariz junto à fonte que ainda
lá existe. Aí, eu e a miudagem do
meu bando, chapinhávamos na água entre duas brincadeiras. O chafariz e
a fonte eram o nosso regalo no pino do Verão. Nos anos sessenta o chafariz
foi sacrificado ao pseudo-progresso, pois foi arrancado a fim de facilitar
a circulação automóvel. Este foi um dos crimes de que primeiro me lembro
terem sido cometidos nesta cidade. Hoje, o largo é um imenso parque de
estacionamento e no local onde existia acolhedor um chafariz de água
límpida, jazem agora dois imundos contentores de lixo, ocupando
praticamente o espaço que dantes era ocupado pelo chafariz. Tudo isto,
repito, em nome do pseudo-progresso. Normalmente passávamos a noite da missadura em casa da minha tia
Estrela, no Largo do Espírito Santo, em Estremoz. Fazíamos o lume de chão
para nos aquecermos e para grelharmos a chouriça, o lombinho e o toucinho
das sete carnes. O pingo que escorria das missaduras era cuidadosamente
aparado com nacos de pão. Até dava para nos lambermos a comer pão
assim. Por cima das nossas cabeças, o fumeiro - espécie de enfermaria
para os enchidos - onde luzidias e gulosas chouriças, morcelas e
farinheiras ficavam a curar, aguardando a sua vez da gente se poder
repimpar com elas. Ti Manel Alturas, o
meu avô materno, tocava ronca e com a sua voz esganiçada, cantava:
A mesa estava posta para o ritual da comezaina da noite. Pão
caseiro, fruta da época, arroz doce e bolos que as mulheres atarefadas
faziam durante todo o dia. Ele era a bolema, o bolo podre, o bolo de
laranja e as argolinhas que os mais crescidos empurravam com vinho doce ou
com vinho abafado, depois de termos despachado a chouriça, o toucinho e os
lombinhos. Tudo acompanhado com brócolos e regado com vinho da adega do Zé
da Glória. E sabem o que vos digo? Não me lembro de alguma vez ter ouvido
falar em colesterol. Na lareira, crepitava o madeiro de Natal. Eu passava a noite a
brincar ao pé do lume, a ouvir falar e cantar os mais velhos. Só saía dali
cerca da meia noite quando me mandavam para a rua ver o Pai Natal entrar
pela chaminé. Durante muitos anos não consegui perceber a razão exacta
pela qual, o bom do Pai Natal entrava precisamente na altura em que eu
saía. Depois de ter percebido isto, os presentes minguaram a olhos vistos.
Para vos falar disto é por que sei a diferença exacta que há entre os dois
natais. Vêm-me também à memória as fogueiras dos Santos Populares que se
faziam na rua do Almeida, entre a Adega do Zé da Glória e a fábrica de
refrigerantes do Massano. Se calhar todos sabem que a Adega do Zé da
Glória era onde está hoje o filho, o Isaías. Provavelmente já lá foram
comer burras assadas. Talvez não saibam é o que é um pirolito de berlinde.
Pois eu e os putos como eu, homens que andam por aí hoje na berlinda,
sabíamos bem o que era um pirolito de berlinde. Além de dar para arrotar
depois de bebido, dava para jogar ao berlinde, pois claro! Nessa época não
havia brinquedos com comando a distância, nem computadores, nem joysticks,
pelo que jogávamos ao berlinde, aos amalhões e à mosca no território onde
o nosso bando era rei e senhor. O meu era ali para o Largo do Espírito
Santo. Foi aí que ao brincar, vi o destemido bombeiro Mário, mobilizado
pelo toque de fogo, vir lançado de bicicleta, rua do Mau-Foro abaixo, na
gáspea. Falta de travões ou curva mal feita, não sei. O que é verdade é
que o bombeiro Mário já não foi apagar o fogo nesse dia. Impávido e
sereno, o umbral do portão da Horta do Quiton, metera-lhe a testa para
dentro, marcando-lhe o rosto para o resto da vida. Alguém terá dito a
propósito: “Devagar se vai ao longe!”. Nesse tempo, eu e os putos como eu, íamos no Verão tomar banho
ao tanque da galega, ali na rua do Lavadouro, junto à Fonte do Espírito
Santo. Ora, como o tanque era um tanque de lavagem da roupa, muitas vezes
tomávamos banho em água de sabão. Outros, mais afoitos, corriam riscos
maiores e iam tomar banho aos charcos das pedreiras. Mas os mais audazes
eram, os que de noite ou em pleno dia, iam tomar banho ao lago do Gadanha, mesmo nas barbas
da polícia, que de chanfalho na mão se aproximava pronta a infligir
castigo. E como era giro, ver os putos bater a sola, dar às de Vila Diogo
e deixar os polícias para trás, rubros de raiva e impotência. |