A PropÓSITo De SÃo MARTINHO - NOTAS DE LITERATURA ORAL

Hernâni António Carmelo de Matos  

No próximo dia 11 de Novembro é dia de São Martinho, dia em que por tradição se prova o vinho novo, pois São Martinho é pretexto para molhar a goela, embora se ponha em dúvida que São Martinho - o austero bispo de Tours - tenha bebido vinho, salvo o que no sacrifício da missa tomou, misturado com água.

Entretanto, diz a tradição algarvia que o mesmo São Martinho, em 383, solicitou ao imperador Máximo auxílio material para a edificação de um convento. Foi o bispo bem recebido e no repasto imperial a que assistiu, com os personagens da corte, bebeu-se além da medida e foram tantas e fartas as carraspanas que os invejosos que só viram e ouviram - classificaram de martinhada. Daqui vem, ao que parece, ser São Martinho o patrono dos bêbados, embora se ignore se São Martinho no citado banquete foi daqueles que se excederam nas libações.

O bom vinho provém naturalmente de uvas de castas de qualidade, colhidas nas vindimas. Estas estão registadas e caracterizadas na poesia portuguesa e em particular na poesia popular e dentro desta na quadra. Foi Fernando Pessoa, que também gostava da pinga e de que maneira, quem disse. “A quadra é o vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Vejamos uma quadra sobre a vindima, recolhida nos anos 20 pelo grande etnólogo Luís Chaves, em Santa Vitória do Ameixial. É uma quadra de amor e tem a ver com o quotidiano do trabalho agrícola:

“Ó parreira, dá-me um cacho,

Ó cacho, dá-me um baguinho;

Amor, dá-me um abraço,

que eu te darei um beijinho”.

O registo das vindimas no adagiário popular também é significativo. Têm-se assim os seguintes adágios: “Em dia de São Lourenço vai à vinha e enche o lenço”, “Em Fevereiro chuva, em Agosto uva”, Deus criou a uva e o Diabo fez o vinho”, “Com o tempo amaduram as uvas”, “A falada água de São João tira azeite e vinho e não dá pão”, Cava de Agosto enche o tonel de mosto”, “Muita parra, pouca uva”, “Feitas as vindimas, guardam-se os cestos”.

Com tanta conversa já as uvas amadureceram, pelo que é chegada a altura de falar no precioso néctar que delas provém. Ora bem, Portugal desde sempre foi um país de amantes da pinga, pelo que ao longo dos tempos, o vinho além de apreciado tem sido cantado, tanto por poetas eruditos como por poetas populares. De acordo com o cancioneiro popular, o vinho dá alegria e mesmo força, tal como dizem em Borba:

“Amorzinho, vinho, vinho

Água não posso beber;

Água fria me faz mal

Tenho medo de morrer”.

Amorzinho, vinho, vinho

Deita lá meia canada

Amorzinho, vinho, vinho

Sem o vinho não sou nada.”

Beber demais conduz naturalmente à bebedeira, imortalizada por mestre José Malhoa no quadro “Festejando o São Martinho”.

É abundante o adagiário português relativo ao vinho. Eis uma pequena amostra: “A cuba cheira ao vinho que tem em si”, “A mulher e o vinho tiram o homem de seu juízo”, “Azeite, vinho e amigo, o mais antigo”, “No dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”, “O bom vinho escusa pregão”, “O bom vinho faz bom sangue” , “O pão pela cor, o vinho pelo sabor”, “Porcos com frio e homens com vinho fazem grande ruído”.

À riqueza linguística do adagiário popular há que acrescentar a riqueza de múltiplas imagens metafóricas Assim: “Cor de vinho = Cor roxa”, “Estar com o vinho = Estar bêbado”, “Pôr em lençóis de vinho = dar muita pancada”, “Ter uma pontinha de vinho = Começar a estar bêbado”, “Ter mau vinho = fazer tropelias quando está bêbados”, “Ter o vinho triste = ficar triste quando está bêbado”, “Ter o vinho alegre = ficar alegre quando está bêbado”.

Os bêbados, a quem eufemisticamente se chama “borrachos” pertencem à confraria do célebre Sancho Pança de Cervantes, o qual, para justi­ficar o beber constante, dizia: “Bebo quando tenho vontade; quando não tenho e quando me dão vinho, por não parecer melindroso ou malcriado; que a um brinde de amigo, que coração de mármore haverá que não faça logo razão?”

Os borrachos seguem à risca os dez mandamentos que lhe dizem respeito e que foram compilados pelo Abade de Baçal, nos seus Estudos Durienses. Eis os mandamentos: “1º) Beber com assento; 2º) Escorripichar o copo até ao fundo; 3º) Fazer da garganta um rigueiro; 4º) Beber até ficar farto; 5º) Beber sempre do branco e do tinto; 6º) Beber a qualquer pretexto; 7º) Beber do seu, do alheio e do de empréstimo; 8º) Beber até ficar como um cravo; 9º) Beber no estio, na primavera, no inverno e no outono; 10º) Beber até ficar com acréscimo”. Estes dez mandamentos sintetizam-se em dois, a saber: 1º) Beber sempre; e 2º) Nunca deixar de beber. Os dez mandamentos podem, finalmente, ser resumidos num único que diz: “Pregar os beiços na torneira e nunca deixar de beber”.

NOTÍCIAS DA RAINHA - Nº 5 - Setembro - Outubro de 2001

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