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SEBASTIÃO DA GAMA
(carta de Estremoz,
acerca do mercado, publicada no "Jornal do Barreiro" de Março de 19 |
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Março, 5 - Se me querem ver contente, é darem-me um sábado de Estremoz. Não que eu seja triste nos mais dias. O que eu amo e quanto bendigo, pelo contrário, este precioso bem de existir! Dores, desgostos, bofetadas? Disso é feito o bem... Que coragem teria eu de ser feliz se na base de tudo, e a dar sabor e pureza à impura alegria, não estivessem bofetadas, desgostos, dores? Ao sábado, é o mercado. A praça enfeitada, a praça contente. A fruta - que os pintores matam e embalsamam nas telas para lhe chamarem natureza morta. Morta, a fruta? Ó coisa sumarenta e divina, alegre, pujante! Houve para aí um poeta que foi o primeiro a não cantar as olheiras imorais de Ofélia - cantou a maçã, o tomate, a abóbora carneira, a alface. A tal natureza morta... E a poesia mais saudável de Portugal nasceu. A maçã cheirou, pulsou no tomate o coração da terra. Natureza morta... Ó meu sábado estremocense! Até há sol quando não há sol... Meu mercado paralelo - porque há uma fileira de roupas e logo, paralela, uma fileira de barros (como reluzem, metal humano, ao sol que há ou não há!) e outra de galinhas, ovos, frangos, perus..., e outra de frutas e outra de hortaliças... Paralelas ao longo do Rossio; e no ar da manhã um estranho cheiro de alegria, de saúde. Cesário Verde. (Há um meridiano. Ao fundo. Os carros de parelha, cor de barro, os cereais, os estancos improvisados - sobre os carros alinham-se os copos, as garrafas de briol, a chouriça; e a velhota gorda que fotografei, logo ao lado, frege carapaus miúdos...) Também aparecem os “aldrabões”. Enrouquecem. Proclamam a excelência da mercadoria, fazem sortes de prestidigitação, convidam o provável freguês a confrontar preços. Lá costumo parar também, na chusma dos basbaques. Raro espectáculo, de ingenuidade e boa-fé, aquelas caras abertas à novidade. Riem. Sorriem. Pasmam. (E o ovo aparece, misteriosamente, no bolso do meu vizinho...) Vou comprando aqui, comprando ali... Um prato com um pássaro, que voou, no fundo do prato, do Redondo até ao Rossio de Estremoz... Um queijinho fresco... Rabanetes... E violetas - um, dois, três, quatro, cinco raminhos de violetas. É que não há nas cinco partes do Mundo violetas que valham estas. Eu gosto do nome das vossas flores, ó simbolistas! Mas não as vi, não as aspirei. Têm letras - lindíssimas letras. Até o y grego, que eu amo tanto. Mas não têm pétalas. Mas não vieram até ao meu quarto, femininamente, enchê-lo de graça, de poesia, de ternura. Percorre o mercado o bom povo dos arredores, que vem comprar, que já vendeu... Vozes no ar, claras como as almas e como as casas... Um cabritinho chora, preso de pés e mãos (porque não há-de ser “de pés e mãos”?) Tão lindo! Galgos, magros como galgos, seguem um velho caçador. Carros passam, tilintando, ferindo a calçada. O ar cheira a fruta, cheira a flores. Como tudo isto é bom! O sábado de Estremoz é o meu domingo de Estremoz.
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