SEBASTIÃO DA GAMA

 (carta de Estremoz, acerca de um hortelão, publicada  no "Jornal do Barreiro" de Abril de 1951)                               

Abril, 5 - À primeira vista era um pobre homem só gordo. Uma vasta barriga, uma cara de bolacha com a barba a sujá-la. Baixo. Mas saudou-nos com simpatia, quis que visitássemos a horta. A bem dizer, não era uma horta: era um palmo de horta e logo um faval de um palmo; e eram três pés de vinha; e eram pereiras, quatro ou cinco pereiras, todas em flor como noivas; e flores - cor do sol e felizes, primaverais.

Avançámos, fomos ver tudo isto. E o homem apontava as couves, as flores de cheirar, as flores de dar fruto. E aos poucos ia deixando de ser um homem só gordo. Das suas mãos é que nascera, tanto como da terra e da água, aquela maravilha. O contentamento de ter vingado a semente e de estar ali, já flor ou fruto, ou já folha, verde folha, folha tenra, a prender de encanto os nossos olhos - subia-lbe na voz e a voz era suave, era um fio de água acorrendo às raízes.

Ao fundo da quintazinha havia o poço. Era história para contar: emperrara o motor, não fora amanhado ainda - e eis porque “vêem os senhores esta ou aquela planta mais triste. Olhem além a sementeira dos alhos. Tão lindos que estavam! Tão viçosos! Mas a água faltou e para aí os tenho a enfezarem, coitadinhos!”

Coitadinhos!... Nunca nenhum poeta me falara com tanta ternura das plantas, suas irmãs em São Francisco. Ou nunca nenhum poeta, a ter assim falado, o disse tão naturalmente, tão sem pensar no público. Sabia lá o pobre homem que estava com ele gente de auscultar palavras!

O hortelão não era só gordo, não senhor. Que não é só gordo quem quer às plantas como às almas vivas, almas suas. Quem dá, sem querer, uma tão rara lição de cósmica fraternidade, que a gente fica, finalmente, de olhos abertos para ver, de ouvidos abertos para ouvir, de cora­ção aberto para amar. Voltámos. Mais ricos do que fôra­mos. Imponderável, mínima, era nossa mais uma palavra. “Para aí os tenho a enfezarem, coitadinhos!”

Imponderável. Mínima. E de um peso, e de um tamanho, como nenhuma outra naquele dia...