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SEBASTIÃO DA GAMA |
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Abril, 5 - À primeira vista era um pobre homem só gordo. Uma vasta barriga, uma cara de bolacha com a barba a sujá-la. Baixo. Mas saudou-nos com simpatia, quis que visitássemos a horta. A bem dizer, não era uma horta: era um palmo de horta e logo um faval de um palmo; e eram três pés de vinha; e eram pereiras, quatro ou cinco pereiras, todas em flor como noivas; e flores - cor do sol e felizes, primaverais. Avançámos, fomos ver tudo isto. E o homem apontava as couves, as flores de cheirar, as flores de dar fruto. E aos poucos ia deixando de ser um homem só gordo. Das suas mãos é que nascera, tanto como da terra e da água, aquela maravilha. O contentamento de ter vingado a semente e de estar ali, já flor ou fruto, ou já folha, verde folha, folha tenra, a prender de encanto os nossos olhos - subia-lbe na voz e a voz era suave, era um fio de água acorrendo às raízes. Ao fundo da quintazinha havia o poço. Era história para contar: emperrara o motor, não fora amanhado ainda - e eis porque “vêem os senhores esta ou aquela planta mais triste. Olhem além a sementeira dos alhos. Tão lindos que estavam! Tão viçosos! Mas a água faltou e para aí os tenho a enfezarem, coitadinhos!” Coitadinhos!... Nunca nenhum poeta me falara com tanta ternura das plantas, suas irmãs em São Francisco. Ou nunca nenhum poeta, a ter assim falado, o disse tão naturalmente, tão sem pensar no público. Sabia lá o pobre homem que estava com ele gente de auscultar palavras!
O
hortelão não era só gordo, não senhor. Que não é só gordo quem quer às
plantas como às almas vivas, almas suas. Quem dá, sem querer, uma tão rara
lição de cósmica fraternidade, que a gente fica, finalmente, de olhos
abertos para ver, de ouvidos abertos para ouvir, de coração aberto
para amar. Voltámos. Mais ricos do que fôramos. Imponderável, mínima,
era nossa mais uma palavra. “Para aí os tenho a enfezarem,
coitadinhos!” Imponderável. Mínima. E de um peso, e de um tamanho, como nenhuma outra naquele dia...
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